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Santos Reis

Sobre Carnaval, Mandela, Luther King e futebol

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Na quinta-feira, dia 11 de fevereiro, foram completados 20 anos da libertação de Nelson Mandela da prisão onde ficou preso entre 1964 e 1990, acusado de traição ao regime do apartheid. Vencedor do Nobel da Paz em 1993, foi eleito o primeiro presidente negro da África do Sul em 1994, no auge de sua popularidade em todo o mundo. Mandela, hoje com 92 anos, está afastado da política e da mídia. Raramente aparece, a não ser em eventos especiais, como ocorreu no sorteio dos grupos da Copa do Mundo na África do Sul (aliás, conseguida graças à influência dele), quando apareceu em vídeo-conferência.

Esses 20 anos de libertação de Nelson Mandela não encerraram as muitas discussões sobre o preconceito. A África do Sul pós-Mandela é um país que nos últimos anos tem melhorado no que diz respeito à igualdade racial, mas ainda possui sérios problemas que provocam outro tipo de desigualdade, a econômica: 17 milhões de habitantes sobrevivem com apenas cerca dois dólares americanos por dia e calcula-se que no mínimo 30 milhões de africanos portem o vírus da Aids. A população atual da África é de cerca de 50 milhões de habitantes. Daí, pode-se ver o tamanho do problema. Jacob Gedleyihlekisa Zuma, o atual presidente, é um polígamo assumido, com várias acusações de corrupção e violência ao longo de sua história política e pessoal (muitos o comparam a Idi Amin Dada, o famoso ditador de Uganda). Zuma não terá forças políticas suficientes para melhorar a situação de seu povo, mesmo que tenha uma Copa do Mundo prestes a ocorrer em seu país.  A Copa do Mundo funcionará para a África como o futebol e o Carnaval funcionam para o Brasil. Panis et circensis.

Em épocas de Carnaval, festa máxima da alienação no Brasil, que certamente nega de forma total qualquer preconceito e muito menos preocupações com problemas econômicos e sociais internos ou estrangeiros, lembrar a libertação de Mandela é uma forma de trazer aos mais jovens a compreensão de um regime contra o qual o mundo todo se mobilizou.

O apartheid, na definição da Wikipedia, significa "separação" em africânder e é uma palavra de origem afrikaans. Foi adotado como lei na África do Sul em 1948 para nomear o regime segregacionista em que brancos assumiam o poder e os restantes eram submetidos a regras que, no final das contas, excluíam-lhes o direito de cidadania.

Não-brancos eram excluídos do governo e não tinham direito a voto, salvo se fossem pleitos de instituições segregadas sem nenhum poder. Também não podiam exercer diversas profissões e não podiam ter negócios em áreas designadas somente para brancos.


Os negros, cerca de 70% da população da África do Sul, foram excluídos praticamente de tudo. Para circular no país, deviam ter um passe, caso contrário, poderiam ser presos. Suas propriedades foram confiscadas e entregues a brancos. Nos lugares onde foram segregados, faltavam desde o saneamento básico à eletricidade e escolas.




Foi um tempo de tristezas. Mandela lutou contra isso. Foi preso. Como Ghandi, pregava a não-violência. Sua companheira nos tempos em que ficou preso, Winnie, deixou de sê-lo quando ele descobriu que ela estava envolvida na morte de um jovem delator.

Martin Luther King e Nelson Mandela têm muito em comum, além da cor da pele. Destaco, sobretudo, que ambos eram sonhadores. O sonho de Luther King e de Mandela não é um mundo melhor para negros. É de um mundo melhor para o mundo, de um mundo melhor para todos que estamos nele.

Recomendo a leitura do artigo de Paulo Nogueira no seu blog Diário do Centro do Mundo, bem como o texto de Justice Malata (jornalista sul-africano) no jornal "O Estado de São Paulo", em que se fala da importância de lembrar Mandela. Para finalizar, deixo aqui alguns versos escritos há alguns anos, quando Nelson Mandela foi libertado.

"O poema negro I"
 
"O homem a quem quiseres matar nunca será este ou aquele; esses não passam de disfarces. Quando odiamos um homem, odiamos em sua imagem algo que trazemos em nós mesmos. Também o que não está em nós mesmos nos deixa indiferentes."   (Herman Hesse)


O poema negro ocupa discriminadamente
o sonho de ser feliz onde não pode...
São dois dias depois
Nelson saiu sozinho
Nelson, seria sonho?...
They set him free...


É incompreensível a estupidez
Falta de espelhos autocríticos em nós
Repentinamente a notícia de que o libertaram
nos faz felizes mas não festejamos tanto...
Há coisas ainda a serem feitas
A discriminação está enraizada
O rancor está emaranhado em corações
Em almas brancas e negras
Nélson saiu, mas ele é apenas um homem
Um símbolo de uma luta martirizado pela prisão.


O apartheid não será vencido apenas assim,
com um decreto dizendo que acabou e que todos serão iguais...
Nunca serão iguais, porque são mesmo diferentes...
E é isso que precisa ser respeitado...
São todos seres humanos
E isso é o que deve ser respeitado...
Nelson saiu, somente isso
They set him free
O poema negro ocupa discriminadamente o seu espaço
com palavras de angústia e sofrimento,
com lembranças de fome e de lágrimas...

**********

(em 12/02/1990)


"O poema negro II"
 

"O homem nunca encontrou uma definição para a palavra liberdade."   (Abraham Lincoln)


nós homens temos em comum a incerteza
do que somos, para que somos e por que somos
buscamos então as respostas diversas que preencham
o enorme vazio dentro dentro dentro dentro de nós...
questionamos também a realidade que nos cerca,
cruel em suas perspectivas sombrias



o negro dentro de nós ressurge enfim gritando
grita tão alto que nosso corpo explode em dor
pra se fazer de novo homem obsclaro obscuro
gritando de dor...


liberdade enfim buscamos todos nós, os inseguros,
em nossa ignorância de que somos afinal apenas sonho,
sonhadores sem perspectivas que não sejam sombrias...
temos o sonho de um rei
"I have a dream..."
que não será realidade apenas através de uma lei
será preciso mais, enfim,
para que o negro seja de fato libertado.


somos homens, crianças e temos medo do escuro escuro escuro
há dentro de cada um a vontade de saber
enfim se conhecer...
superar as fraquezas e a solidão
despir nossa pele, nossa humilhação,
vestir as cores de nosso coração...
conhecer em nós nossa imensidão
o quanto somos grandes ou não...


cresçamos
Nelson saiu hoje e está livre
mas continua preso entre barras
barras invisíveis aos olhos que não querem ver
que a liberdade é um conceito a se rever
e que seu sentido é difícil de se entender
Nelson saiu e aquela
esperança que o fez Mandela
continua certamente acesa dentro dele
e oxalá essa chama possa se espalhar
incendiando o coração de todo homem
porque um povo só poderá se sentir livre
quando não houver ninguém com fome
um povo só poderá ter liberdade um dia
quando não houver ninguém sem moradia
ou sem saúde ou sem emprego ou sem escola,
quando não houver necessidade de esmola...

(em 14/02/1990) 

*******************
 

The_EDN[2] The EDN, sou industriário, trabalho há 27 anos na Cedro (indústria têxtil centenária de Caetanópolis, MG) e atuo como professor há 24 anos em escolas particulares e públicas.

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