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Armando Peladas — Saudades do velho cronista

terça-feira, 30 de março de 2010



Abro esse post com uma crônica minha, humildemente inspirada no estilo do Armando Nogueira, que era um estilista. Escrevia sobre futebol com uma carga literária, dramática, trazendo a essência do esporte mais admirado do mundo.



Peladas à tarde


Armandinho chegou correndo da escola, com o rosto todo suado. Jogou a pasta sobre a mesa da sala, tirou a camisa da escola e o chinelo e deixou por ali mesmo. Sua mãe, a Sá Isa, ainda não tinha chegado do serviço na casa da Dona Laura. Aproveitaria para jogar bola no campinho com os amigos da rua.


A turma toda já estava lá. O Joca tinha levado a bola de capotão furada só um pouquinho. Era melhor que a bola do Zequito, de plástico duro, ressecado, que queimava a pele de quem ficasse na frente. Além disso, bola um pouquinho furada de capotão sempre mantinha um pouco de ar, não picava muito, não corria muito naquela ladeira íngreme que era o campinho e não machucava, mesmo que a cabeça do dedão estivesse toda regaçada. E as cabeças dos dedões sempre estavam regaçadas.


clip_image001Era final do campeonato. Todos queriam ganhar. Seu time já estava escalado, mas faltava um: o Lombriga. Cadê aquele folgado? Tinham que começar logo o jogo, senão a Sá Isa chegava e acabou-se. Nada de jogo com aqueles moleques da rua.


Ninguém sabia do Toninho Lombriga. Ele não tinha ido à escola naquele dia. Resolveram começar sem ele. Ia ser difícil, porque do outro lado tinha o melhor goleiro do bairro, talvez do mundo: o Iachinho. Ninguém tinha ideia de onde tinha vindo esse apelido. O nome dele mesmo era João de Arimateia Correia de Oliveira. Pegava muito, mesmo sendo meio gordinho e baixinho. Para vencê-lo, só mesmo os chutes e os dribles do Toninho Lombriga.


O jogo estava complicado, o outro time não atacava muito, mas se defendia bem demais. E os contra-ataques eram sempre muito perigosos. Até que fizeram um gol. Armandinho amaldiçoou o Lombriga. Outro gol do outro time e nova maldição.


Acabou o primeiro tempo e os meninos correram todos para a biquinha do chafariz para tomar água. Foi quando veio a notícia: o Toninho Lombriga não tinha aparecido porque a mãe dele tinha morrido. Foi atropelada. Armandinho ficou sem-graça e retirou todas as maldições, batendo na própria boca com força. Tinham que terminar o jogo. Voltaram e logo descobriram como superar o Iachinho. O Joca deu a ideia e o Armandinho fez xixi na bola. O Iachinho era muito nojento. Não pôs a mão em nenhuma bola mais. Se dava para pegar com o pé, tudo bem. Viraram o jogo. Não foi bonito o que Armandinho fez, mas ganharam. Ele queria dar a vitória ao Lombriga.


De repente, um assovio avisou do perigo. Sá Isa vinha chegando. A pelada acabou abruptamente e novo campeonato foi marcado para o dia seguinte. E seria nova final, considerando que na rua só havia os dois times mesmo, que nem sempre eram os mesmos, pois dependia do sorteio.


Sá Isa chegou falando da mãe do Lombriga. Estava chorosa. Eram amigas. Como ele e o Toninho Lombriga. Mandou o Armandinho se arrumar. Tinham que ir ao velório. Armandinho não gostava muito dessas coisas. Mas achou bom, pois assim contaria ao Lombriga como foi a final e que eles tinham vencido por ele.


Quando chegou lá, ao chegar perto do Lombriga, percebeu no olhar dele que algo tinha mudado. Talvez o Lombriga não se importasse mais com futebol. Talvez nunca mais jogasse futebol na vida. O Lombriga, que era um menino alto para sua idade, o mais grandão da turma, parecia pequeno.


Passaram-se meses e o Lombriga não jogou mais. Estava trabalhando na loja do tio. Não ia à escola mais. Não conversava mais sobre o que o resto da turma conversava. Um dia, ele falou para o Armandinho não chamá-lo mais de Lombriga. Ele era o Antônio Carlos.


Armandinho e os amigos entenderam tudo. Sá Isa explicou que, quando um menino perde a mãe, ele deixa de ser menino e vira homem.


Armandinho não queria virar homem. Ele não queria perder a mãe... Queria simplesmente continuar suas peladas depois da escola, escondidas da mãe, as brincadeiras com os amigos... Não queria se tornar um homem.


(The EDN)

***********



Morreu Armando Nogueira. Essa frase é péssima para iniciar qualquer texto, inclusive esse post. Mas é verdade. Todos os amantes do futebol, na sua essência, bem como os admiradores do bom jornalismo, sentem muito em ouvi-la. Armando Nogueira era uma lenda viva e continuará sendo lenda, ainda que não esteja mais aqui, desde segunda-feira, 29/03/2010 aos 83 anos de idade, no Rio de Janeiro.


clip_image003Acreano de Xapuri (a mesma cidade onde também nasceu o seringueiro e líder sindical Chico Mendes), nascido a 14 de janeiro de 1927, pioneiro do telejornalismo, foi um dos responsáveis pelo início do jornalismo na Rede Globo. Seus pais eram cearenses que emigraram para o Acre, onde viveu até por volta de 17 anos de idade, quando se mudou para o Rio de Janeiro. Fez curso de Direito, mas queria mesmo ser jornalista.


Trabalhou 13 anos no Diário Carioca, que contava, na época (1950), com alguns dos mais expressivos jornalistas do Rio de Janeiro: Otto Lara Resende, Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, entre outros. Foi uma época de aprendizagem para Armando.


Além do Diário Carioca, colaborou também com o Diário da Noite, com as famosas revistas Manchete e O Cruzeiro, e com o Jornal do Brasil.


Segundo a Wikipedia, foi pioneiro na televisão brasileira, a partir de 1959, na primeira produtora independente do país, dirigida por Fernando Barbosa Lima, onde escreveu textos para os locutores Cid Moreira e Heron Domingues lerem na antiga TV-Rio. Fez inúmeros outros trabalhos na área do jornalismo na televisão, mas sua paixão sempre foi o esporte, em especial o futebol. A partir de 1954, esteve presente na cobertura todas as Copas do Mundo e, desde 1980, de todos os Jogos Olímpicos.


Mas um episódio interessante de sua vida, mostra a ética que sempre norteou o seu trabalho. Transcrevo abaixo literalmente o que diz a Wikipedia:


“(...) Mesmo com todos esses serviços prestados, envolveu-se em uma rumorosa polêmica em 1989, dentro da própria Globo. No segundo turno das eleições presidenciais daquele ano, a emissora promoveu um debate entre os candidatos Fernando Collor de Melo e Luiz Inácio Lula da Silva. No compacto do evento, que foi exibido no dia seguinte de sua transmissão no Jornal Nacional, houve uma edição que favoreceu claramente o candidato Collor, que desde o início foi apoiado - direta ou indiretamente - pelas empresas de Roberto Marinho. Na qualidade de diretor de jornalismo, Armando foi pessoalmente a Roberto e fez duras críticas à sua postura e a dos funcionários que realizaram aquela edição, dizendo que não compactuava com aquilo. Por causa disso, acabou aposentado pela alta cúpula e desligou-se da emissora definitivamente no ano seguinte. Passou, então, a se dedicar integralmente ao jornalismo esportivo (...).”


A partir do início de 1990, Armando Nogueira deixou a TV Globo e dedicou-se quase que exclusivamente ao jornalismo esportivo. Foi comentarista na TV Cultura (1992 a 1993), na TV Bandeirantes (1994 a 1999) e no SporTV, canal da Globosat, participando em programas esportivos diversos (1995 a 2007). Manteve uma coluna publicada em 62 jornais brasileiros, um programa no SporTV, um programa de rádio e um sítio na Internet. Tinha uma empresa chamada Xapuri Produções, que faz vídeos institucionais para empresas. Fazia, além disso, palestras motivacionais. Escreveu dez livros, todos sobre esportes.


Armando Nogueira era desportista, acima de tudo. Praticou voos em ultraleves, tendo sido fundador do clube carioca da modalidade. No futebol, foi torcedor apaixonado do Botafogo.


Deixo a seguir quatro crônicas do mestre, de quem já estamos com saudades.



A Massa
(Armando Nogueira)


Torcidas, haverá as mais numerosas (Flamengo) ou mais conhecidas por sua grandeza (Corinthians), mas nenhum séqüito futebolístico brasileiro se compara ao do Clube Atlético Mineiro em mística apaixonada, em anedotário heróico, em poesia acumulada ao longo dos anos.

"A Massa", como é simplesmente conhecida em Minas Gerais, compartilha com a torcida corinthiana ("A Fiel") a honra de deixar-se conhecer com um substantivo ou adjetivo comum transformado em nome próprio, inconfundível.

A Fiel, A Massa: poucas outras torcidas terão realizado tal operação de mutação de um nome comum em nome próprio.

Muito distintas são, no entanto, as torcidas dos alvi-negros paulistano e belo-horizontino: quem já vestiu a camisa do time do Parque de São Jorge sabe que a Fiel é fiel em sua paixão, não em seu apoio. Na derrota, a Fiel é implacável; não desaparece, como a torcida do Cruzeiro. Está sempre lá.

Mas é capaz de crucificar com um pequeno manifestar-se de sua raiva. Na vitória, cobra cada vez mais, e reinstala aí sua insatisfação, cuja raiz quiçá esteja no mal-resolvido trauma dos 23 anos sem título, e do grande pesadelo de duas décadas chamado Pelé. A Fiel é fiel, e sempre o foi, mas sua fidelidade se nutre de um descompasso entre a alma do torcedor e a alma do time.

No caso do atleticano, a alma do time não é senão a alma da torcida.

Toda a mística da camisa, das vitórias sobre times tecnicamente superiores (e também das derrotas trágicas e traumáticas), emana da épica, das legendárias histórias que nutre sua apaixonada torcida: nem o Urubu, nem o Porco, nem o Peixe, nem a Raposa, nem o Leão, nem nenhum animal mascote se confunde com o nome do time, com sua identidade, com sua alma mesma, como o Galo com o Atlético Mineiro. E Galo é o nome da torcida (GA-LO), bissílabo cantável e entoável como grito de guerra que ela eternizou ao encarnar em si o espírito do animal. Nenhum outro time é conhecido por tantas vitórias improváveis só conquistadas porque a massa empurrou.

"Quem possui uma torcida como esta, é praticamente impossível de ser derrotado em casa" (Telê Santana).

Pelos idos de 69 ou 70, o timaço do Cruzeiro já tetra ou pentacampeão entrava em campo mais uma vez e parecia que de novo ia humilhar o Atlético, que já amargava o quinto aniversário do Mineirão sem nenhum título estadual. A superioridade técnica de Tostão, Dirceu Lopes, Natal, Raul, Piazza e cia. era simplesmente incontestável. Mesmo naquele clássico durante vacas tão magras, a massa atleticana era, como sempre foi, maioria no Mineirão. Impotente, ela viu Dirceu Lopes abrir o placar e o time do Cruzeiro massacrar o Galo durante 45 minutos. No intervalo, a Massa que cantava o hino do Atlético foi inflamada por um recado de Dadá Maravilha pelo rádio: "Carro não anda sem combustível".

A fanática multidão encheu-se de brios, fez barulho como nunca, entoou o grito de guerra como nunca, encurralou sonoramente a torcida cruzeirense, e o time do Atlético infinitamente inferior, liderado pelo artilheiro Dario e pelo seu grande goleiro (como é da tradição atleticana) Mazurkiewcz - virou o placar para 2 x 1 sobre o escrete azul, e abriu caminho para a reconquista da hegemonia em Minas, selada com o título estadual de 70 e o Brasileiro de 71. Nenhum dos jogadores atleticanos presentes nessa vitória jamais se esqueceu da energia que emanava das arquibancadas, e que literalmente ganhou o jogo.

Também as derrotas tradicionalmente contribuíram para a mística e paixão atleticana: como em 1998, quando o visitante Corinthians trouxe ao Mineirão sua máquina que se preparava para ser bicampeã brasileira e campeã mundial. O Galo se recuperava no Campeonato Brasileiro, vinha de uma vitória sobre o Grêmio no Olímpico, e a Massa mais uma vez lotou o estádio. Com seu toque de bola, o Corinthians envolveu o time atleticano, e no meio do segundo tempo já aplicava impiedosos 5 x 0, enquanto tocava a bola, colocava os atleticanos na roda e esperava o fim do jogo. Vendo seu time humilhado por um adversário superior dentro de seu próprio terreiro, massa se levantou, e cantou durante mais de 10 minutos o belo hino, mais alto e com mais amor que nunca. Nenhum jogador presente se esqueceu, e um ano depois o Galo devolveria ao Corinthians os 5 x 1 do Mineirão, com sonoros 4 x 0 no Maracanã.

Como no silêncio sepulcral que envolveu o Mineirão em março de 1977, quando a grande equipe atleticana de Cerezo, Reinaldo, Paulo Isidoro, João Leite e Marcelo perdeu nos pênaltis o título que todos já consideravam seu, incluindo-se, às vezes parece, os próprios adversários são-paulinos. O time do Atlético, mesmo jogando sem Reinaldo, injustamente suspenso, foi empurrado pela torcida, mostrou-se muito superior ao do São Paulo, como havia feito durante todo o campeonato em que acumulou 17 vitórias, 4 empates e nenhuma derrota, encurralou o adversário durante 120 minutos, mas o gol não saiu. O título é perdido nos pênaltis, mesmo depois de duas grandes defesas de João Leite em cobranças são-paulinas. Ângelo, um dos craques do jovem time atleticano, deixou a partida pisoteado por Chicão, e nunca mais seria o mesmo.

O Galo, base da seleção brasileira de Osvaldo Brandão, sai de campo vice-campeão invicto, com os 11 jogadores abraçados, 10 pontos à frente do campeão, e a Massa recebe aí sua grande tarefa dos próximos anos: realizar o luto pelo enorme trauma. Começou a tarefa no domingo seguinte às 10 da manhã, levando legiões de bandeiras para uma amarga partida contra o Bahia no Mineirão.

Nenhuma outra derrota de um favorito no Brasileirão se revestiria de tanta mística apaixonada. A partir daí essa Massa acumularia 10 títulos mineiros em 12 anos, e uma seqüência de campanhas sensacionais no Brasileirão (o Atlético Mineiro é o time que mais pontos conquistou nos Campeonatos Brasileiros), interrompidas na final ou semifinal, em jogos fatídicos (Flamengo-80, Santos-83, Coritiba-85, Guarani-86, Flamengo-87, Corinthians-88).

A magia atleticana se encarnaria no seu torcedor mais famoso, Sempre, cujo nome real não se conhece, tal é força do apelido. Durante décadas, Sempre ocupou as arquibancadas do Independência e do Mineirão, com sua bandeira e seus ditos legendários. Nunca deixou de comparecer e nunca vaiou o time, embora chorasse nas derrotas. Foi dos primeiros a entoar o hino composto por Vicente Motta em 1969, e depois aprendido por milhões em todo o Brasil. Abria e fechava o clube diariamente, e participou de epopéias memoráveis da massa atleticana, como quando a multidão carregou no colo o artilheiro Ubaldo, pentacampeão mineiro de 1956, de sunga, ao longo dos 5,5 quilômetros que separam o estádio Independência da Praça Sete, ou como quando 20.000 atleticanos invadiram o Maracanã e empurraram o time à conquista do Primeiro Campeonato Brasileiro, em 1971, sobre o Botafogo de Jairzinho.

O Furacão de 70 sentiu seu peso de novo cinco anos mais tarde, na decisão do Mineiro de 76, quando a Massa, mesmo tendo comemorado só 1 dos últimos 11 campeonatos mineiros, tomou conta do Mineirão para empurrar uma turma de meninos de 18-21 anos (de nomes Reinaldo, Cerezo, Paulo Isidoro, Danival, Marcelo) a vitórias contundentes sobre o campeão da Libertadores.

Estava aberto o caminho para o hexacampeonato de 78-83.

"Se houver uma camisa alvi-negra pendurada no varal num dia de tempestade, o atleticano torce contra o vento". O achado do cronista Roberto Drummond resume a mitologia do Galo: contra fenômenos naturais, contra todas as possibilidades, contra forças maiores, a torcida atleticana passa por radical metamorfose e se supera. Superou-se tantas vezes que já não duvida de nada, e cada superação reforça ainda mais a mística, como uma bola de neve da paixão futebolística.

Nenhum atleticano hesitaria em apostar na capacidade da Massa de transformar o impossível em possível a qualquer momento, de fazer parar aquela tempestade que açoita o pavilhão alvi-negro deixado solitário no varal.

Não surpreende, então, o sucesso que tiveram os jogadores uruguaios que atuaram no Atlético Mineiro, do grande Mazurkiewcz ao maior lateral-esquerdo da história do clube, Cincunegui. Se há uma mística de garra e amor à camisa que se compara à atleticana, é a da celeste, não mineira, mas uruguaia. Só à seleção uruguaia a pura paixão por um nome e um símbolo levou a tantas vitórias inacreditáveis, improváveis, espíritas, ou puramente heróicas. Em 1966, as duas camisas legendárias se encontraram, e o Galo derrotou o Uruguai duas vezes (26/04/66 - Atlético 3 x 2 Uruguai, 18/05/66 - Atlético 1 x 0 Uruguai).

Ao contrário das torcidas conhecidas por sua origem étnica (Palmeiras, Cruzeiro, Vasco), por sua origem social (Flamengo, Fluminense, Grêmio, São Paulo), ou por seu crescimento a partir de uma grande fase do time (Santos), qualquer menção da torcida do Atlético Mineiro evoca, invariavelmente, substância mesma que constitui o torcer. O amor ao time na vitória e na derrota, o apoio incondicional, a garra, a crença de que sempre é possível virar um resultado, o hino entoado unissonamente: a legião fanática que ama o Galo acima de tudo sabe que ser atleticano é unir-se num estado de espírito, compartilhar uma memória, e fazer da esperança uma permanente iminência.

A massa atleticana é a prova maior de que, mesmo em época de profissionalização total do futebol, e do negócio futebol, para o povo brasileiro este é acima de tudo paixão por uma cor, um nome, um símbolo, a memória de um instante que pode ser um gol, um campeonato, um abraço ou um beijo. Galo é o nome que mais radical e verdadeiramente expressa, para tantos milhões de brasileiros, o inexplicável dessa paixão.

O Galo é o único clube a ter vencido a Seleção Brasileira. E não foi qualquer uma. Ela entrou em campo com Felix, Carlos Alberto, Djalma Dias, Joel e Rildo (Everaldo); Piazza e Gérson (Rivelino); Jairzinho, Tostão Zé Maria), Pelé e Edu (Paulo César). O Galo venceu com Mussula, Humberto Monteiro, Grapete, Normandes (Zé Horta) e Cincunegui (Vantuir); Oldair e Amauri (Beto); Vaguinho, Laci, Dario e Tião (Caldeira).


Peladas

(Armando Nogueira)


Esta pracinha sem aquela pelada virou uma chatice completa: agora, é uma babá que passa, empurrando, sem afeto, um bebê de carrinho, é um par de velhos que troca silêncios num banco sem encosto.


E, no entanto, ainda ontem, isso aqui fervia de menino, de sol, de bola, de sonho: “eu jogo na linha! eu sou o Lula!; no gol, eu não jogo, tô com o joelho ralado de ontem; vou ficar aqui atrás: entrou aqui, já sabe.” Uma gritaria, todo mundo se escalando, todo mundo querendo tirar o selo da bola, bendito fruto de uma suada vaquinha.


Oito de cada lado e, para não confundir, um time fica como está; o outro jogo sem camisa.


clip_image005Já reparei uma coisa: bola de futebol, seja nova, seja velha, é um ser muito compreensivo que dança conforme a música: se está no Maracanã, numa decisão de título, ela rola e quiçá com um ar dramático, mantendo sempre a mesma pose adulta, esteja nos pés de Gérson ou nas mãos de um gandula.


Em compensação, num racha de menino ninguém é mais sapeca: ela corre para cá, corre para lá, quiçá no meio-fio, pára de estalo no canteiro, lambe a canela de um, deixa-se espremer entre mil canelas, depois escapa, rolando, doida, pela calçada. Parece um bichinho.


Aqui, nessa pelada inocente é que se pode sentir a pureza de uma bola. Afinal, trata-se de uma bola profissional, uma número cinco, cheia de carimbos ilustres: “Copa Rio-Oficial”, “FIFA - Especial.” Uma bola assim, toda de branco, coberta de condecorações por todos os gomos (gomos hexagonais!) jamais seria barrada em recepção do Itamarati.


No entanto, aí está ela, correndo para cima e para baixo, na maior farra do mundo, disputada, maltratada até, pois, de quando em quando, acertam-lhe um bico, ela sai zarolha, vendo estrelas, coitadinha.


Racha é assim mesmo: tem bico, mas tem também sem-pulo de craque como aquele do Tona, que empatou a pelada e que lava a alma de qualquer bola. Uma pintura.


Nova saída.


Entra na praça batendo palmas como quem enxota galinha no quintal. É um velho com cara de guarda-livros que, sem pedir licença, invade o universo infantil de uma pelada e vai expulsando todo mundo. Num instante, o campo está vazio, o mundo está vazio. Não deu tempo nem de desfazer as traves feitas de camisas.


O espantalho-gente pega a bola, viva, ainda, tira do bolso um canivete e dá-lhe a primeira espetada. No segundo golpe, a bola começa a sangrar.


Em cada gomo o coração de uma criança.


(Do livro “Os melhores da crônica brasileira”, José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1977, pág. 29)



Pelada de Subúrbio

(Armando Nogueira)


Nova Iguaçu, quatro horas da tarde, sábado de sol. Dois times suam a alma numa pelada barulhenta; o campo em que correm os dois times abre-se como um clarão de barro vermelho cercado por uma ponte velha, um matagal e uma clip_image007chácara silenciosa, de muros altos.


A bola, das brancas, é nova e rola como um presente a encher o grande vazio de vidas tão humildes que, formalmente divididas, na verdade, juntam-se para conquistar a liberdade na abstração de uma vitória.


Um chute errado manda a bola, pelos ares, lá nos limites da chácara, de onde é devolvida, sem demora, por um arremesso misterioso. Alguns minutos mais tarde, outra vez a bola foi cair nos terrenos da chácara, de onde voltou lançada com as duas mãos por um velhinho com jeito de caseiro.


Na terceira, a bola ficou por lá; ou melhor, veio mas, cinco minutos depois, embaixo do braço de um homem gordo, cabeludo, vestido numa calça de pijama e nu da cintura para cima. Era o dono da chácara.


A rapaziada, meio assustada, ficou na defensiva, olhando: ele entrou, foi andando para o centro do campo, pôs a bola no chão e, quando os dois times ameaçavam agradecer, com palmas e risos, o gesto do vizinho generoso, o homem tirou da cintura um revólver e disparou seis tiros na bola.


No campo, invadido pela sombra da morte, só ficou a bola, murcha.


(Do livro “Os melhores da crônica brasileira”, José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1977, pág. 22)


México 70

(Armando Nogueira)


México 70 - E as palavras, eu que vivo delas, onde estão? Onde estão as palavras para contar a vocês e a mim mesmo que Tostão está morrendo asfixiado nos braços da multidão em transe? Parece um linchamento: Tostão deitado na grama, cem mãos a saqueá-lo. Levam-lhe a camisa levam-lhe os calções. Sei que é total a alucinação nos quatro cantos do estádio, mas só tenho olhos para a cena insólita: há muito que arrancaram as chuteiras de Tostão. Só falta, agora, alguém tomar-lhe a sunga azul, derradeira peça sobre o corpo de um semi-deus.


Mas, felizmente, a cautela e o sangue-frio vencem sempre: venceram, com o Brasil, o Mundial de 70, e venceram, também, na hora em que o desvario pretendia deixar Tostão completamente nu aos olhos de cem mil espectadores e de setecentos milhões de telespectadores do mundo inteiro.


E lá se vai Tostão, correndo pelo campo afora, coberto de glórias, coberto de lágrimas, atropelado por uma pequena multidão. Essa gente, que está ali por amor, vai acabar sufocando Tostão. Se a polícia não entra em campo para protegê-lo, coitado dele. Coitado, também, de Pelé, pendurado em mil pescoços e com um sombrero imenso, nu da cintura para cima, carregado por todos os lados ao sabor da paixão coletiva.


O campo do Azteca, nesse momento, é um manicômio: mexicanos e brasileiros, com bandeiras enormes, engalfinham-se num estranho esbanjamento de alegria.


Agora, quase não posso ver o campo lá embaixo: chove papel colorido em todo o estádio. Esse estádio que foi feito para uma festa de final: sua arquitetura põe o povo dentro do campo, criando um clima de intimidade que o futebol, aqui, no Azteca, toma emprestado à corrida de touros.


Cantemos, amigos, a fiesta brava, cantemos agora, mesmo em lágrimas, os derradeiros instantes do mais bonito Mundial que meus olhos jamais sonharam ver. Pela correção dos atletas, que jogaram trinta e duas partidas, sem uma só expulsão. Pelo respeito com que cerca de trezentos profissionais de futebol se enfrentaram, músculo a músculo, coração a coração, trocando camisas, trocando consolo, trocando destinos que hão de se encontrar, novamente, em Munique 74.


Choremos a alegria de uma campanha admirável em que o Brasil fez futebol de fantasia, fazendo amigos. Fazendo irmãos em todos os continentes.


clip_image009Orgulha-me ver que o futebol, nossa vida, é o mais vibrante universo de paz que o homem é capaz de iluminar com uma bola, seu brinquedo fascinante. Trinta e duas batalhas, nenhuma baixa. Dezesseis países em luta ardente, durante vinte e um dias — ninguém morreu. Não há bandeiras de luto no mastro dos heróis do futebol.


Por isso, recebam, amanhã, os heróis do Mundial de 70 com a ternura que acolhe em casa os meninos que voltam do pátio, onde brincavam. Perdoem-me o arrebatamento que me faz sonegar-lhes a análise fria do jogo. Mas final é assim mesmo: as táticas cedem vez aos rasgos do coração. Tenho uma vida profissional cheia de finais e, em nenhuma delas, falou-se de estratégias. Final é sublimação, final é pirâmide humana atrás do gol a delirar com a cabeçada de Pelé, com o chute de Gérson e com o gesto bravo de Jairzinho, levando nas pernas a bola do terceiro gol. Final é antes do jogo, depois do jogo — nunca durante o jogo.


Que humanidade, senão a do esporte, seria capaz de construir, sobre a abstração de um gol, a cerimônia a que assisto, neste instante, querendo chorar, querendo gritar? Os campeões mundiais em volta olímpica, a beijar a tacinha, filha adotiva de todos nós, brasileiros? Ternamente, o capitão Carlos Alberto cola o corpinho dela no seu rosto fatigado: conquistou-a para sempre, conquistou-a por ti, adorável peladeiro do Aterro do Flamengo. A tacinha, agora, é tua, amiguinho, que mataste tantas aulas de junho para baixar, em espírito, no Jalisco de Guadalajara.


Sorve nela, amiguinho, a glória de Pelé, que tem a fragrância da nossa infância.


A taça de ouro é eternamente tua, amiguinho.


Até que os deuses do futebol inventem outra.


(Texto extraído do livro “O melhor da crônica brasileira”, José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1997, pág. 26.)

Sobre o Autor:
The EDN

The EDN - sou industriário, trabalho há 27 anos na Cedro (indústria têxtil centenária de Caetanópolis, MG) e atuo como professor há 24 anos em escolas particulares e públicas

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