Leia também...

Leia também...
Homo Sapiens x Homo Cyber

Leia também...

Leia também...
O Humor nos Tempos do Cólera

Leia também...

Leia também...
Os 10 Mandamentos da Vida Virtual

Leia também...

Leia também...
Santos Reis

Os 5 escritores brasileiros mais inovadores de todos os tempos

terça-feira, 13 de abril de 2010


Quando se fala em arte, logo somos levados a debater senso estético ou, como queiram, “gosto”, que é coisa que não se discute. Mas, como invicioneiro que sou, vou deixar minha posição subjetiva, altamente pessoal e, contrariando o ditado, discutível, sobre aqueles que julgo serem os 5 escritores brasileiros mais inovadores de todos os tempos. Quem discordar, manifeste-se, porque este espaço é livre, mas justifique a discordância. Quem concordar, manifeste-se também e acrescente o que achar conveniente.




João Guimarães Rosa



“Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens.”


guimaraes-rosa

João Guimarães Rosa, mineiro quase conterrâneo de Cordisburgo (pertinho daqui de Caetanópolis, a apenas 25 minutos de automóvel), nascido em 27/11/1908, o primeiro dos seis filhos de D. Francisca Guimarães Rosa, a Chiquitinha, e de Florduardo Pinto Rosa, o “Seu Fulô”, que era comerciante, juiz-de-paz, caçador de onças e contador de estórias.


Joãozito, seu codinome, com menos de 7 anos já estudava francês por conta própria. Com a chegada a Cordisburgo do Frei Canísio Zoetmulder, um frade franciscano holandês, em 1917, passou a aprender também o holandês e aprofundar-se nos estudos de francês.


Aprendeu também o alemão quando estudou no famoso Colégio Arnaldo (Belo Horizonte). Tornou-se um poliglota, aprendendo também diversas outras línguas: inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; lia em sueco, holandês, latim e grego. Estudou a gramática do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês. Guimarães Rosa achava que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajudava a compreender melhor o idioma português.


Formou-se em medicina, mas não exerceu durante muito tempo a profissão. Prestou concurso para o Ministério do Exterior, obtendo o segundo lugar. Virou diplomata. Serviu na Alemanha, de 1938 a 1942, durante a Segunda Guerra Mundial. Ajudou judeus a fugir para o Brasil, emitindo, com a segunda esposa, Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, mais vistos do que as cotas legalmente estipuladas, tendo, por essa ação humanitária e de coragem, ganhado, no pós-Guerra, o reconhecimento do Estado de Israel. Aracy foi a única mulher homenageada no Jardim dos Justos entre as Nações, no Museu do Holocausto, em Israel.


Guimarães Rosa foi um inovador fantástico, altamente revolucionário quanto ao vocabulário usado nos seus livros. Para descrever seu jeito de escrever, ninguém melhor que o próprio:



· “Somente renovando a língua é que se pode renovar o mundo.”


· “A língua e eu somos um casal de amantes que juntos procriam apaixonadamente, mas a quem até hoje foi negada a benção eclesiástica e científica. Entretanto, como sou sertanejo, a falta de tais formalidades não me preocupa. Minha amante é mais importante para mim.”


· “A língua portuguesa, aqui no Brasil, está uma vergonha e uma miséria. Está descalça e despenteada;.... É preciso distendê-la, destorcê-la, obrigá-la a fazer ginástica, desenvolver-lhe músculos. Dar-lhe precisão, exatidão, agudeza, plasticidade, calado, motores. E é preciso refundi-la no tacho, mexendo muitas horas. ... A nossa literatura, com poucas exceções, é um valor negativo, um cocô de cachorro no tapete de um salão. Naturalmente palavrosos, piegas, sem imaginação criadora, imitadores, ocos, incultos, apressados, preguiçosos, vaidosos, impacientes, não cuidamos da exatidão...... Quem pode, deve preparar-se, armar-se, e lutar contra esse estado de coisas. É uma revolução branca, uma série de golpes de estado.” (Em carta a Vicente Guimarães, de 11 de maio de 1947)


· “De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira. (...) Mas ainda haveria mais, se possível (...): além, dos estados líquidos e sólidos, porque não tentar trabalhar a língua também em estado gasoso?” (Em carta a João Condé, de 1946)


· “Escrevo, e creio que este é o meu aparelho de controle: o idioma português, tal como o usamos no Brasil; entretanto, no fundo, enquanto vou escrevendo, eu traduzo, extraio de muitos outros idiomas. Disso resultam meus livros, escritos em idioma próprio, meu, e pode-se deduzir daí que não me submeto à tirania da gramática e dos dicionários dos outros. (...) Se tem de haver uma frase feita, eu preferia que me chamassem de reacionário da língua, pois quero voltar a cada dia à origem da língua, lá onde a palavra ainda está nas entranhas da alma, para poder lhe dar luz segundo a minha imagem. (...) Eu quero tudo: o mineiro, o brasileiro, o português, o latim, talvez até o esquimó e o tártaro. Queria a linguagem que se falava antes de Babel. (...) amo a língua, realmente a amo como se ama uma pessoa. Isto é importante, pois sem esse amor pessoal, por assim dizer, não funciona. (...) Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.” (numa entrevista a Günter Lorenz, em 1965)





Sousândrade



Joaquim de Sousa Andrade, o Sousândrade (Guimarães, MA, 09/07/1833 — São Luís, MA, 21/04/1902) foi um escritor e poeta encaixado no Romantismo brasileiro, embora seu estilo fosse incompreendido na época. Formado em Letras e em Engenharia de Minas pela Universidade de Sorbonne, de Paris, era um republicano convicto e militante. Morou nos Estados Unidos, onde sofreu influências importantes do incipiente clima capitalista daquele país. Foi lá que publicou sua obra mais importante, “O Guesa”, usando recursos expressivos como neologismos e metáforas vertiginosas, só valorizados e compreendidos muito depois de sua morte. Resgatada no início da década de 1960 pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, revelou-se uma das mais originais e instigantes obras de todo o nosso Romantismo.


Quando voltou ao Maranhão, vibrou entusiasmado com a Proclamação da República, republicano que era. Em 1890, tornou-se presidente da Intendência Municipal de São Luís, promovendo a reforma do ensino, fundando escolas mistas e idealizando a bandeira do Estado, garantindo que suas cores representassem todas as raças ou etnias que construíram sua história.


Mas, para marcar a costumeira história de tragédias dos autores do Romantismo brasileiro, morreu em São Luís, abandonado, na miséria e considerado louco. Sua obra foi esquecida durante décadas. Em 1877, escreveu: “Ouvi dizer já por duas vezes que o Guesa Errante será lido 50 anos depois; entristeci - decepção de quem escreve 50 anos antes.”


Um trecho de “O Guesa” para entendermos melhor esse sujeito inovador:



“Imagens do ar, suaves, flutuantes,

Ou deliradas, do alcantil sonoro,

Cria nossa alma; imagens arrogantes,

Ou qual aquela, que há de riso e choro:

Uma imagem fatal (para o ocidente,

Para os campos formosos d'áureas gemas,

O sol, cingida a fronte de diademas,

índio e belo atravessa lentamente):

Estrela de carvão, astro apagado

Prende-se mal seguro, vivo e cego,

Na abóbada dos céus, — negro morcego

Estende as asas no ar equilibrado.”




Catulo da Paixão Cearense


Poeta brasileiro nascido em 08/10/1863 em São Luís, Maranhão, onde faleceu em 10/05/1946. Catulo foi um inovador porque suas poesias exprimiram a ingenuidade e pureza do caboclo, cativando a sensibilidade do povo e foi o pioneiro do Nordeste a ter uma letra sua gravada em disco.


catulodapaixaocearense

Filho do ourives Amâncio José da Paixão Cearense e de Maria Celestina Braga, aos dez anos mudou-se com os pais, para a fazenda dos avós paternos, no sertão cearense. Passou parte da infância no sertão do Ceará e, ainda novo, foi para o Rio de Janeiro em 1880, onde se tornou seresteiro conhecido. Escreveu letras para modinhas, choros e canções de autores célebres da época, como Anacleto de Medeiros e Ernesto Nazaré. Sua letra mais famosa foi “Luar do sertão”, modinha de João Teixeira Guimarães, o João Pernambuco, que se tornaria um clássico da música popular.


Entrou definitivamente para os anais da música brasileira ao trazer o violão das rodas de seresteiros para os conservatórios de música em 1908, quando, convidado pelo Maestro Alberto Nepomuceno, fez um recital de violão no então templo da música erudita de tradição européia no Brasil e foi aplaudido de pé.


Morreu empobrecido em Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, mas seu cancioneiro levou Mário de Andrade a classificar o autor como o maior criador de imagens da poesia brasileira. A contribuição maior de Catulo talvez foi trazer sem preconceitos o jeito de falar do sertanejo, em pleno domínio literário dos puristas parnasianos. Um trecho do conhecido texto “Resposta do Geca Tatu” para exemplificar ( o texto completo pode ser lido aqui):


“Seu dotô!... Venho dos brêdo

só pru móde arrespondê

toda aquela farunçage

que vancê foi inscrevê

Eu não sei lê, mas porém

o seu padre capelão

que sabe lê munto bem,

leu prá nós tudo, im tres mez

o seu bunito sermão

Me dissérum, cá na corte,

que o seu doutô faz aquilo

de cabeça e sem trabáio!...

Vancê tem fôrgo de gato

e língua de papagaio!

Não têje vancê jurgando

que eu sejê argum canguçú!

Não sou não, seu conseiêro!

Sou do Norte!... Eu sou violêro,

e vivo naquelas mata,

como véve um sanhassú.

Vassuncê já me cunhece!

Eu sou o Geca-Tatú!!”




Turma da Poesia Concreta


À turma da Poesia Concreta considero grande inovadora e transgressora da linguagem poética. Especialmente o trio composto pelos Irmãos Campos (Haroldo e Augusto) e Décio Pignatari, criadores do Concretismo.


irmãos campos e pignatari


Haroldo Eurico Browne de Campos (São Paulo, 19 de agosto de 1929 — 16 de agosto de 2003) foi poeta e tradutor. Dominava várias línguas: latim, inglês, espanhol e francês.


Augusto Luís Browne de Campos (São Paulo, 14 de fevereiro de 1931) é também poeta, tradutor e ensaísta. É um dos criadores da Poesia Concreta, junto com o irmão, Haroldo de Campos e Décio Pignatari.


Décio Pignatari (Jundiaí, 20 de agosto de 1927) é um poeta, ensaísta, professor e tradutor brasileiro. Desde os anos 1950, realizava experiências com a linguagem poética, incorporando recursos visuais e a fragmentação das palavras.


Foram membros do Clube da Poesia, do qual discordaram do conservadorismo predominante entre os poetas da “Geração de 45”. Fundaram, então, o grupo Noigandres, passando a publicar poemas na revista do grupo, de mesmo título, usando estratégias visuais como a colocação geométrica dos vocábulos, o uso de cores e de diferentes tipos de letras.


Alguns exemplos de Poesia Concreta:



beba augusto

Décio Pignatari

Haroldo de Campos

augusto2

Augusto de Campos





Gregório de Matos Guerra


Gregório de Matos e Guerra nasceu em Salvador em 23 de dezembro de 1636 e morreu no Recife em 26 de novembro de 1695. Mais conhecido como o Boca do Inferno, é considerado o maior poeta barroco do Brasil e o mais importante poeta satírico da literatura em língua portuguesa, no período.


gregoriodematos

O apelido adquiriu por criticar a Igreja Católica, governantes e a sociedade da época, muitas vezes ofendendo padres e freiras inclusive com termos de baixo calão. Criticava também a “cidade da Bahia”, ou seja, Salvador, como neste soneto:







A cada canto um grande conselheiro.
que nos quer governar cabana, e vinha,
não sabem governar sua cozinha,
e podem governar o mundo inteiro.


Em cada porta um frequentado olheiro,
que a vida do vizinho, e da vizinha
pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
para a levar à Praça, e ao Terreiro.


Muitos mulatos desavergonhados,
trazidos pelos pés os homens nobres,
posta nas palmas toda a picardia.


Estupendas usuras nos mercados,
todos, os que não furtam, muito pobres,
e eis aqui a cidade da Bahia.


Mas, ao contrário do que se possa pensar, sua poesia satírica não é a melhor parte de sua obra. Sua obra sacra e lírica é de grande qualidade, recheada dos estilos cultista e conceptista, comuns ao Barroco. Seguem dois sonetos que ilustram sua poesia lírica e sacra, respectivamente:


Anjo no nome, Angélica na cara


Anjo no nome, Angélica na cara
Isso é ser flor, e Anjo juntamente
Ser Angélica flor, e Anjo florente
Em quem, se não em vós se uniformara?


Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente
Que por seu Deus, o não idolatrara?


Se como Anjo sois dos meus altares
Fôreis o meu custódio, e minha guarda
Livrara eu de diabólicos azares


Mas vejo, que tão bela, e tão galharda
Posto que os Anjos nunca dão pesares
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda



*****************


Buscando a Cristo


A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos,
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.


A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lagrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados,


A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me.


A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.


*****************


Mas Gregório de Matos é inovador também porque brincou com a distribuição gráfica das palavras na página poética em pleno Barroco, antecipando o movimento Concretista. O poema abaixo serve de exemplo:


Na oração que desaterra........................... aterra,
Quer Deus que a quem está o cuidado....... dado
Pregue que a vida é emprestado............... estado,
Mistérios mil que desenterra.................... enterra.


Quem não cuida de si que é terra.............. erra,
Que o alto Rei por afamado..................... amado
E quem lhe assiste ao desvelado............... lado
Da morte ao ar não desaferra.................. aferra.


Quem do mundo a mortal loucura............ cura,
À vontade de Deus sagrada...................... agrada
Firmar-lhe a vida em atadura................... dura.


Ó voz zelosa que dobrada......................... brada,
Já sei que a flor da formosura................... usura
Será no fim desta jornada........................ nada.


*****************


Enfim, concluí a minha lista dos 5 escritores brasileiros mais inovadores. Como disse, está em aberto a inclusão de qualquer outro que o leitor achar interessante…

 

Sobre o Autor:
The EDN

The EDN - sou industriário, trabalho há 27 anos na Cedro (indústria têxtil centenária de Caetanópolis, MG) e atuo como professor há 24 anos em escolas particulares e públicas.

Feed
Gostou desse Artigo? Então deixe um comentário, assine nosso Feed ou receba os artigos por email

9 comentários :

Postar um comentário

# Antes de comentar, leia o artigo;
# Os comentários deverão ter relação com o assunto;
# Pode criticar a vontade, inclusive o blogueiro;
# Comentários ofensivos ou pessoais serão sumariamente deletados;
# As opiniões nos comentários não refletem a opinião do blog e são de inteira responsabilidade dos seus autores;