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Santos Reis

Um Invicioneiro na Route 66

segunda-feira, 12 de abril de 2010

 

route_66_motel_invicioneiros 

 

 

Eu sempre sonhei em conhecer os EUA pela Route 66 (ou Rota 66, como queiram), a lendária estrada que atravessa a América de costa à costa. Bem, não precisamente de costa à costa, já que Chicago, Illinois, situa-se nas margens do Lago Michigan, na região dos Grandes Lagos, porção continental quase centro-nordeste dos EUA, e não na costa do Atlântico. Porém, a Route 66 atravessa oito estados americanos até chegar em Los Angeles, Califórnia, no extremo sudoeste americano, na beira do Pacífico.

 

Tal jornada de 3.940 km, acredito que se equivale a atravessar a Europa, numa distância entre Moscou a Lisboa. Ou então, a distância entre São Paulo a Manaus.

 

route.66.map

 

Esta viagem tem a mística que os muçulmanos têm para peregrinarem até Meca, uma vez na vida. E eu achava que todo cidadão americano também fazia tal peregrinação na Route 66.

 

Estereótipo ou não, o “american way of life” não seria o mesmo sem a Route 66, a “mãe de todas as estradas”.

 

Aluguei uma Harley-Davidson, modelo idêntico ao do road movie “Sem Destino” (Easy Rider – 1969), para eu poder realizar o sonho de atravessar os EUA pela histórica estrada, tendo Chicago como ponto de partida.

 

Até então, a única rodovia famosa que conhecia era a BR 040 (ok, de vez em quando passava pela BR 381 também...)

 

E assim, caí na estrada, partindo de Chicago, terra do Barack Obama e de Al Capone. Lá uns caras meio mal-encarados me fizeram adiantar a viagem...

 

Mafiosos_Chicago

 

E com o celular desligado e com o peito estufado, eu acelerei feito um personagem de Jack Kerouac rumo ao desconhecido...

 

RIDER151207_468x516

 

route-66

 

(Imaginem um nerd entoando o mantra “Born to be Wild”...!):

 

 

E assim, como Camões, “por mares nunca dantes navegados”, atravessei os estados de Illinois, Missouri, Kansas e Oklahoma, sob muito calor, poeira e êxtase.

 

66 3

 

Resolvi completar o tanque e tirar uma “água do joelho” em um posto de gasolina em Tulsa, OK. Num rango daqueles, procurei por pão de queijo, quando a minha ficha caiu: eu não estava em Minas… Azar o deles: pão de queijo é um maná que não pode ser encontrado nesses malditos drive-thrus de beira de estrada, que só vendem colesterol e AVCs.

 

E como estava anoitecendo, resolvi pernoitar ali mesmo em Tulsa.

 

Estava um calor infernal, que parecia Montes Claros. Pelo menos fiz umas amizades quentes também. E tão divertidas quanto:

 

3_tanguinha

 

Passei por Oklahoma City, capital de OK. Beberiquei uma tequila em Amarillo, no Texas, e vomitei o Big Mac que havia comido em Tulsa.

 

Apesar de meio perrengue, cheguei na famosa Santa Fé, no Novo México.

 

66 6

 

Lá, por um azar, fui atendido por uma garçonete doida de pedra. Jurou de pé junto que era neta de Charles Manson com uma índia sioux. Ela se chamava Cody Lane e era atriz de cinema. E como ficou sabendo que o meu destino era LA, pediu uma carona, para se encontrar com Quentin Tarantino (!).

 

E para complicar ainda mais, a pequena Cody estava fugindo de seu noivo. Disse que o cara era “o cão chupando manga”: ciumento, violento, que adora exterminar tuiteiros e tinha o “índice da maldade” tão elevado quanto o do J. Noronha...

 

cody_lane

 

Ela desbocada e com uma arma em punho, pulou na garupa da minha moto e mandou eu picar a mula:

 

“Go, mothersucker, go!”

 

sem-calcinha-na-moto

 

Fiquei fulo da vida porque ela me obrigou a passar direto por Albuquerque e eu nem tive tempo de conhecer a cidade que tanto me recomendaram...

 

Acabamos parando ao anoitecer, num motel em Flagstaff, no Arizona.

 

66 8

 

Lá, eu consegui me esquivar dessa noiada, que, do nada, efetuou dois disparos na minha direção que, por muita sorte, não me acertaram!

 

Cody_Killer_Invic

 

Eu pensei: “P****, será que saí do Cedro para ser morto no Arizona? Que zona...!”

 

Não desperdicei a chance e abandonei aquela agourenta na beira da estrada, naquela escuridão de lua nova.

 

Acelerei o máximo que pude. A viagem voltou à normalidade. Atravessei o famoso deserto de Mojave (nada contra, mas ainda prefiro o cerrado: pelo menos lá tem pequi e araticum que são ótimos para a memória...).

 

mojave_desert-4

 

Ah, em Mojave, por coincidência, encontrei três velhos amigos que me deviam uma grana. Lógico que não foi desta vez que me pagaram...

 

los3amigos

 

Finalmente cheguei em LA, Califórnia, todo moído e estropiado!

 

66 9

 

Desmaiei no quarto de motel, me sentindo o próprio Cristo depois do Calvário!

 

Lá pelas tantas, um sujeito esquisito me acordou. Tinha cara de agente da extinta KGB. Apontava uma arma na minha direção e sussurrava algo incompreensível:

 

“Where’s my bride? Where’s my bride?”

 

Kill1

 

E eu, meio zonzo, perguntava: “Orgulho? Que orgulho?”

 

O cara, ainda mais nervoso, insistia:

 

“Bullshit! Where’s my bride?”

 

E não é que o filho-da-mãe apertou o gatilho...

 

The_Killer

 

E de repente, tudo ficou frio, escuro e silencioso...

 

* * *

 

E eis que por um milagre, eu despertei. Parece que alguém havia a pouco, sussurrado em meu ouvido: “Wake up, dead man!”.

 

“Oh, Glória!” Eu não queria morrer dormindo, ainda que em Los Angeles, ainda que no Brilhante!

 

E é por essas e outras que muito valor eu dou a outro trajeto que faço do serviço pra casa: de Paraopeba pra Caetanópolis, no coração de Minas.

 

volta_pra_casa

 

E esta dádiva vale mais que qualquer sonho!

 

Sobre o Autor:

Harley Coqueiro

Harley Coqueiro - um cara da paz, iluminista, torcedor do Galo, evangélico não fundamentalista, pai do Ulisses e do Dante. Já desenhou charges, escreveu poemas e compôs canções gospel. Tem como pecados, gostar em excesso de rock'n'roll, filmes e comida!

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