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Santos Reis

Um conto sobre ambição

terça-feira, 6 de julho de 2010

 

Minha primeira impressão em relação ao que ocorreu naquele dia foi que Jonas era um desconhecido para mim. Nunca imaginei que ele seria capaz daquilo. Seu olhar sobre Marta era um olhar de ambição…

 

 

Jonas era, até aquele dia, o meu melhor amigo.  Partilhamos muitas coisas ao longo de nossos 35 anos de vida. Estudamos juntos desde os primeiros anos até nos formarmos no curso de Engenharia ElétricaLEISURE RINGS do CEFET-MG, como alunos medianos. Nunca fomos os melhores. Também nunca fomos os piores.

 

 

Nossas vidas passaram rápido. Consigo me lembrar das peladas na rua onde morávamos. Lembro-me da piscina onde nadávamos nos finais de semana. Da quadra da escola, das primeiras namoradas, do primeiro contato com o álcool. Nunca quisemos fumar tabaco nem usar drogas. Nossos pais não tinham carros nem nossos companheiros da época. O clube ficava perto de nossa casa, assim como a escola onde estudamos até concluirmos o Ensino Médio. Não precisávamos de carro.  Não tínhamos problemas com garotas, até Marta chegar…

 

 

Marta apareceu um dia na nossa sala de aula do 3º Ano do Ensino Médio. Quando entramos na sala, conversando banalidades, sequer percebemos sua presença, até o momento em que o professor Eudes fez a chamada de seu nome. Uma voz meio rouca, carregada de uma sensualidade que não era usual fez todos os garotos (e algumas garotas) olhar em sua direção. Foi quando a vimos pela primeira vez…

 

 

Marta não era de conversa. Não se enturmou com as meninas da sala, muito menos com os rapazes. Tentaram se acercar dela, sem sucesso. Certo dia, entretanto, eu e Jonas fomos surpreendidos por sua voz aveludada que soava como se ela sussurrasse em nossos ouvidos. Marta queria que a ajudássemos no trabalho de Física do professor Eudes. Perguntou se tínhamos algum material de consulta e eu disse que sim, que tinha a enciclopédia Verbo Luso-Brasileira de Cultura em minha casa, que era ótima e etc., mas ela só queria saber que dia faríamos o trabalho e se ela podia participar conosco. Dissemos rapidamente que sim e no dia marcado lá estava ela, diferente sem o uniforme da escola e simplesmente estonteante. Vimos que não era apenas sua voz que impressionava. Marta era a sensualidade em pessoa.

 

 

Entregamos o trabalho ao professor Eudes, que o valorizou muito bem. Tiramos a melhor nota da sala. Mas nos lembramos do dia em que fizemos o trabalho juntos. Marta não compartilhou conosco em nenhum momento. Simplesmente copiou o conteúdo que lhe interessava e despediu-se, agradecendo. Ficamos decepcionados. Achamos que ali teria início uma amizade ou algo mais com a menina mais sensual e enigmática da escola.

 

 

Ninguém sabia onde Marta morava, apenas que um senhor de uns 50 anos de idade vinha buscá-la todos os dias na porta da escola em um Corcel II vermelho. Um dia, saímos mais cedo e pudemos ouvir a música que tocava no toca-fitas do carro: “I put a spell on you”, na voz do Creedence Clearwater Revival. A partir daquele dia, ficamos amaldiçoados pelo rock’n roll. No dia seguinte, ouvimos Hendrix em “Hey Joe”. E todos os dias, algo do tipo.

 

 

Ficamos sabendo que o senhor era o avô de Marta. Seus pais tinham se separado. O pai foi embora para outro país quando a mãe morrera num terrível acidente doméstico, ao cair de uma escada, tentando trocar uma lâmpada.

 

 

Marta fora criada pelos avós. Morava em um bairro próximo ao nosso, não saía para nada. Passou a conversar conosco algumas vezes, sempre assuntos ligados à escola. Um dia, resolvemos chamá-la para ir ao clube no final de semana. Conseguiríamos um convite para ela. Seria um sonho vê-la num biquíni. É claro que não dissemos isso a ela.

 

 

Não deu certo. Naquele dia, entretanto, vimos um outro lado de Marta que não era assim tão atraente… Marta ficou furiosa, aparentemente, com o convite. Vimos seu semblante mudar instantaneamente. Não mais falou conosco. Foi assim até o final do ano. Formamo-nos no Ensino Médio e não vimos Marta novamente, até aquele dia…

 

 

Depois de trabalharmos como estagiários em várias empresas e de tentarmos abrir um escritório para prestação de serviços, vimos um anúncio no jornal oferendo 4 vagas para Engenheiros em uma empresa do ramo de energia elétrica.  Resolvemos nos candidatar às vagas. Ao chegar na empresa, fomos encaminhados ao setor de RH, onde fomos atendidos por um rapaz na recepção que nos disse que seríamos atendidos em breve pela gerente de RH da empresa. Aguardamos alguns minutos e fomos chamados, juntamente com mais 12 candidatos a uma sala anexa.

 

 

Quando a gerente de RH surgiu, foi uma surpresa para nós a presença de Marta. Reconhecemos imediatamente pela voz inconfundível. Ela tinha se tornado uma mulher impressionantemente bela. Sua sensualidade não podia ser contida pelo traje obrigatoriamente sério, como não o podia ser na época de escola pelo uniforme.  Mas o que me impressionou mesmo foi o olhar ambicioso de Jonas. Naquele momento, Jonas era para mim um desconhecido. Nunca vira aquele brilho nos seus olhos.

 

 

Ela parecia não nos ter reconhecido. Apresentou as condições da vaga e do processo seletivo ao qual seríamos submetidos. Falava com segurança e clareza. Após apresentadas as condições, uma psicóloga entrou e submeteu-nos aos testes de seleção.  Após algumas horas, concluímos os testes e não vimos mais Marta. Entretanto, o olhar de Jonas sobre ela não saía de minha cabeça.

 

 

Passados alguns dias, fomos convocados à empresa para recebermos um parecer sobre o processo seletivo. Ambos fomos aprovados, em mais uma das coincidências que sempre nos deixaram juntos ao longo da vida. Quem, no entanto, anunciou-nos o resultado não foi Marta e sim o rapaz da recepção. Marcou conosco o dia de virmos assinar a documentação do contrato de trabalho e o início na empresa para o próximo mês.

 

 

Ao chegar o dia de nos apresentarmos, o olhar de Jonas brilhou novamente de ambição. Não era um olhar de desejo simplesmente. Era de ambição… Marta nos recebeu e disse estar feliz por poder trabalhar com amigos. Ela tinha nos reconhecido no dia do processo seletivo, mas não podia manifestar isso naquele momento. Foi uma grata surpresa para nós vermos como ela tinha mudado. Não era mais aquela Marta que conhecêramos no Ensino Médio. Era uma mulher comunicativa e gentil. Falou-nos da empresa, como era agradável trabalhar nela, como o ambiente era liberal, a hierarquia praticamente inexistia e as oportunidades e desafios eram muitos, sempre com muito respeito aos funcionários blá-blá-blá…

 

 

O olhar de Jonas era de ambição. Mas logo tornou-se de decepção. Ao final de nossa jornada naquele dia, Jonas confidenciou-me que chamaria Marta para sair. Queria aquela mulher.  Na saída, porém, tudo mudou ao vê-la abraçada com alguém na saída da empresa, aos beijos e abraços. Era uma linda mulher… Refiro-me não à Marta, mas à mulher a quem ela estava abraçada.

 

 

Achei aquilo tudo muito legal, respeitando a liberdade de escolha de Marta. Mas não foi o mesmo para Jonas. Ele nunca mais foi o mesmo… Fazer o quê, não é mesmo?

 

Frodo with ring

Sobre o Autor:
The EDN

The EDN - sou industriário, trabalho há 27 anos na Cedro (indústria têxtil centenária de Caetanópolis, MG) e atuo como professor há 24 anos em escolas particulares e públicas

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