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Santos Reis

Momentos de aperto

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Os invicioneiros estão passando por momentos de aperto e as publicações estão mais raras. Mas temos a honra de manter esse espaço, sempre falando do que achamos pertinente. E, nesse aspecto, o que é pertinente para mim, invicioneiro tardio, não é falar das eleições que se aproximam nem dos times que estão à frente ou na perspectiva do rebaixamento. Nesse momento, quero falar do que me motivou inicialmente a revelar-me no espaço virtual: a poesia.




Promovemos nestes dias um recital de poesias na escola onde leciono. Trata-se de um evento maiúsculo para mim, por tudo que representa. É a oportunidade de revelarmos talentos escondidos, seja para escrever poesias, seja para representá-las. É a oportunidade de também possibilitarmos aos alunos o desenvolvimento da expressão oral e corporal. E o recital de poesias também permite apresentar de uma maneira mais atraente os grandes nomes da poesia em língua portuguesa.



Sempre coloquei a poesia como a expressão maior dos sentimentos humanos através de palavras. E, nesse breve post, reitero esse meu julgamento, com algumas poesias dos meus prediletos, que meus alunos estarão apresentando na final do nosso recital, prevista para o dia 07/10/2010 (no meio delas, uma mais indigna deste que lhes fala).






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A UM AUSENTE
(Carlos Drummond de Andrade)




Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.




Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?




Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.




Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste






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TRADUZIR-SE
(Ferreira Gullar)




Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.




Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.




Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.




Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.




Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.




Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.




Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?






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QUITANDEIRA
(Agostinho Neto, poeta angolano)




A quitanda.
         Muito sol
e a quitandeira à sombra
da mulemba.




- Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!




A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega.




A quitandeira
que vende fruta
vende-se.




- Minha senhora
laranja, laranjinha boa!




Compra laranja doces
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.




Compra-me a infância do espírito
este botão de rosa
que não abriu
princípio impelido ainda para um início.





Laranja, minha senhora!




Esgotaram-se os sorrisos
com que chorava
eu já não choro.




E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem.




Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.




Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.




Tudo tenho dado.




Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-as aos poetas.




Agora vendo-me eu própria.
- Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da Vida
o meu preço é único:
- sangue.




Talvez vendendo-me
eu me possua.




- Compra laranjas!






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LÁ NO ÁGUA GRANDE
(Alda Espírito Santo, poetisa de São Tomé e Príncipe)




Lá no “Água Grande” a caminho da roça
negritas batem que batem co'a roupa na pedra.
Batem e cantam modinhas da terra.




Cantam e riem em riso de mofa
histórias contadas, arrastadas pelo vento.




Riem alto de rijo, com a roupa na pedra
e põem de branco a roupa lavada.




As crianças brincam e a água canta.
Brincam na água felizes...
Velam no capim um negrito pequenino.




E os gemidos cantados das negritas lá do rio
ficam mudos lá na hora do regresso...
Jazem quedos no regresso para a roça.




                   (É nosso o solo sagrado da terra)




No mesmo lado da canoa
As palavras do nosso dia
são palavras simples
claras como a água do regato,
jorrando das encostas ferruginosas
na manhã clara do dia-a-dia.




É assim que eu te falo,
meu irmão contratado numa roça de café
meu irmão que deixas teu sangue numa ponte
ou navegas no mar, num pedaço de ti mesmo em luta com o gandu (1)
Minha irmã, lavando, lavando
p'lo pão dos seus filhos,
minha irmã vendendo caroço
na loja mais próxima
p'lo luto dos seus mortos,
minha irmã conformada
vendendo-se por uma vida mais serena,
aumentando afinal as suas penas...
É para vós, irmãos, companheiros da estrada
o meu grito de esperança
convosco eu me sinto dançando
nas noites de tuna
em qualquer fundão, onde a gente se junta,
convosco, irmãos, na safra do cacau,
convosco ainda na feira,
onde o izaquente (2) e a galinha vão render dinheiro.
Convosco, impelindo a canoa p'la praia
juntando-me convosco
em redor do voador panhá (3)
juntando-me na gamela
vadô tlebessá4
a dez tostões.




Mas as nossas mãos milenárias
separam-se na areia imensa
desta praia de S. João
porque eu sei, irmão meu, tisnado como eu p'la vida,
tu pensas irmão da canoa
que nós os dois, carne da mesma carne
batidos p'los vendavais do tornado
não estamos do mesmo lado da canoa.




Escureceu de repente.
Lá longe no outro lado da Praia
na ponta de S. Marçal
há luzes, muitas luzes
nos quixipás (5) sombrios...
O pito dóxi (6) arrepiante, em sinais misteriosos
convida à unção desta noite feiticeira...
Aqui só os iniciados
no ritmo frenético dum batuque de encomendação
aqui os irmão do Santu
requebrando loucamente suas cadeiras
soltando gritos desgarrados,
palavras, gestos,
na loucura dum rito secular.




Neste lado da canoa, eu também estou irmão,
na tua voz agonizante, encomendando preces, juras, maldições.




Estou aqui, sim, irmão
nos nozados (7) sem tréguas
onde a gente joga
a vida dos nossos filhos.
Estou aqui, sim, meu irmão
no mesmo lado da canoa.




Mas nós queremos ainda uma coisa mais bela.
Queremos unir as nossas mãos milenárias,
das docas dos guindastes
das roças, das praias
numa liga grande, comprida
dum pólo a outro da terra
p'los sonhos dos nossos filhos
para nos situarmos todos do mesmo lado da canoa.




E a tarde desce...
A canoa desliza serena,
rumo à Praia Maravilhosa
onde se juntam os nossos braços
e nos sentamos todos, lado a lado,
na canoa das nossas praias.




                   (É nosso o solo sagrado da terra)




Vocabulário:
1 - Gandu: tubarão;
2 - Izaquente: frutos cujas sementes são caracterizadas por um alto poder energético;
3 - Vadô Panhá: espécie de peixe voador que no tempo seco se apanha na praia;
4 - Vadô tlebessá: peixe voador que se distingue do vadô panhá por apenas se pescar em alto mar;
5 - Quixipás: barracas feitas com folhas de palmeira;
6 - Pitu dóxi: “apito doce”, literalmente. Flautista virtuoso;
7 - Nozado: velório.






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LISBON REVISITED (1923)
(Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa)




NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.




Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.




Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!




Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!




Que mal fiz eu aos deuses todos?




Se têm a verdade, guardem-na!




Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?




Não me macem, por amor de Deus!




Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?




Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço.  Quero ser sozinho. 
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!




Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita! 
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.



Deixem-me em paz!  Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!






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DEDICATÓRIA
(Castro Alves)



A pomba d'aliança o vôo espraia
Na superfície azul do mar imenso,
Rente... rente da espuma já desmaia
Medindo a curva do horizonte extenso...
Mas um disco se avista ao longe... A praia
Rasga nitente o nevoeiro denso!...
Ó pouso! ó monte! ó ramo de oliveira!
Ninho amigo da pomba forasteira! ...



Assim, meu pobre livro as asas larga
Neste oceano sem fim, sombrio, eterno...
O mar atira-lhe a saliva amarga,
O céu lhe atira o temporal de inverno. . .
O triste verga à tão pesada carga!
Quem abre ao triste um coração paterno?...
É tão bom ter por árvore — uns carinhos!
É tão bom de uns afetos — fazer ninhos!



Pobre órfão! Vagando nos espaços
Embalde às solidões mandas um grito!
Que importa? De uma cruz ao longe os braços
Vejo abrirem-se ao mísero precito...
Os túmulos dos teus dão-te regaços!
Ama-te a sombra do salgueiro aflito...
Vai, pois, meu livro! e como louro agreste
Traz-me no bico um ramo de... cipreste!






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QUANDO A POESIA SE FORMA
(Enanre Etraud)




Quando a poesia se forma
Perco-me em devaneios loucos
Não sei mais quem sou
Não sei onde estou
Nem para onde vou...




As palavras envolvem-me como bolhas
E transportam-me até lugares incríveis
Em que sonho e realidade se confundem
E todas as coisas são possíveis...




Viajo então levado pelo vento
No veleiro veloz de meu pensamento
Vendo ao longe o horizonte próximo
E ao mesmo tempo inalcançável...
Pois o horizonte do poema é vasto,
Seus limites são intransponíveis...
No entanto, suas verdades se expandem
E trazem em si a fantasia —
Quando se forma a poesia...






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Detenho-me aqui, pois há muitos poemas mais e o espaço e paciência dos leitores podem não suportar.



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