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Santos Reis

A difícil arte de escrever em blogs

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

 

Quem redige seus textos constantemente tem a exata noção do quanto é difícil manter a periodicidade e a qualidade dos posts. Com o tempo, todos nós passamos pela estranha sensação de estar caindo no marasmo repetitivo de temas, com assuntos que já foram amplamente dissecados por muitos.

 deu_branco

Imagem: [Passadori]

 

Manter a periodicidade e a qualidade dos posts exige um esforço sobre-humano para todo blogueiro que assumiu essa responsabilidade perante seus leitores. Penso que todos os blogueiros devem passar pelo dilema de, a cada novo post, ver aumentada a responsabilidade com a qualidade do conteúdo publicado.

 

As palavras faladas têm uma vida mais efêmera e um raio de ação menor. No entanto têm um vigor maior, estão no presente. A palavra escrita ganha mais espaço e durabilidade no tempo. No entanto perde significado na medida em que se afasta do ato. Poucas leis antigas têm validade duradoura. Escrever sobre o dia-a-dia é um exemplo marcante da perda de significado. É como jornal de ontem. Escrever com conteúdo duradouro é bem mais difícil. Mas o mais triste é que uma grande maioria cada vez lê menos. E dos poucos que leem, ainda existe nas ofertas a parafernália do inútil. Mas em todo o caso, devemos ter esperança que cresçam as ofertas de escritos de valor. [Vladimir D. Dias]

 

Já disse que existem por aí uma infinidade de blogs dos mais variados nichos. Uma coisa que sempre me chama a atenção em um blog é a qualidade da escrita. O assunto pode ser algo que não me atrai em nada, mas se estiver bem redigido, ganha logo minha admiração e respeito.

 

Possuo a audácia de tentar redigir semanalmente um novo post nesse espaço. Digo audácia, porque sei bem o quão difícil é manter essa periodicidade. Sou muito exigente comigo mesmo quando o assunto é redação. Sempre que acabo um post, fico com a sensação que está uma porcaria e muito abaixo do nível dos anteriores.

 

Como se fosse fácil escrever. Se fosse assim: eu sento, com calma e tempo, e digito palavras, que escapam ordenadamente dos meus dedos. Sento então, e tento. Saem, contudo, idéias desordenadas, em frases feias e feitas. Faltou sempre, e faltará, uma capacidade natural para a comunicação agradável, composta por um texto fluente e lógico. Morro, e antes não escreverei bem. [Eduardo Carvalho]

 

Meu martírio se parece muito com o que bem descreveu o Eduardo Carvalho na citação supramencionada, sobretudo na última frase: “Morro, e antes não escreverei bem”. Quando leio um post bem redigido em algum blog, logo tenho delírios de inveja (inveja boa, é claro), por não conseguir articular as palavras como aquele autor o fez. Fico intrigado: como pode esse pessoa escrever tão bem? De onde ela tira tanta inspiração?

 

No exame de consciência me perco na divagação de que o melhor que posso fazer é parar antes que faça uma merda maior. Embora eu tenha plena consciência das minhas limitações, sou extremamente exigente com meus posts. A título ilustrativo, o meu post anterior foi a maior porcaria já produzida nos últimos tempos na blogosfera. Mas tomei gosto por escrever e me privar desse hobby, seria um golpe duro demais e talvez traumatizante.

 

Enganam-se os que pensam que esse auto-reconhecimento seja uma tentativa de angariar elogios e palavras de incentivo, na verdade, reconheço que nesse último post eu não pesquisei e não li tanto como nos anteriores, publiquei algo apenas para não deixar passar em brancas nuvens o compromisso assumido, opção na qual não recomendo pra ninguém.

 

O ato de escrever que para alguns parece fácil e agradável, para outros representa um "parto" sem perspectivas favoráveis. Normalmente, nas produções de textos escolares, não se prepara o aluno para ser escritor. Muitas vezes, não se prepara nem para escrever satisfatoriamente numa linguagem que revele precisão vocabular e clareza de ideias. [Rogério Bauru]

 

O que aplaca um pouco minha angústia é saber que até mesmo escritores famosos, que todos pensamos serem fontes inesgotáveis de inspiração, também passam por dilemas semelhantes. Guardadas as devidas proporções, vejam o que diz alguns escritores de renome sobre o ato de escrever:

 

“Para mim, o ato de escrever é muito difícil e penoso, tenho sempre de corrigir e reescrever várias vezes. Basta dizer, como exemplo, que escrevi 1100 páginas datilografadas para fazer um romance no qual aproveitei pouco mais de 300.”  [Fernando Sabino]

 

“Escrever é um trabalho duro. Uma frase clara não sai por acidente e poucas saem na primeira, na segunda ou mesmo terceira tentativa. Lembre-se disso como consolo nos momentos de desespero.” (William Zinsser, escritor norte-americano)

 

Como todos puderam ver, a arte de escrever não é uma tarefa fácil nem mesmo para aqueles que vivem exclusivamente dela. Penso que a exigência constante com a qualidade, faz parte do processo de criação. A partir do momento que nos considerarmos suficientemente capacitados e bons, na verdade estaremos em franca decadência.

 

Quem prima pela qualidade nunca se contenta em escrever algo simplesmente para cumprir o compromisso assumido, quer buscar a excelência mesmo nos posts mais simples.  Aliás, a tônica deve ser buscar sempre a perfeição, mesmo sabendo que ela nunca será alcançada.

 

Ademais, é sempre bom lembrar que estamos sempre sendo julgados, com bem frisou Taciana Valença: “existe um “sábio” tribunal de leitores que nos leem para criticarem depois ou tentar nos conhecer através do que escrevemos”.

 

Sobre o Autor:
José Márcio

José Márcio - Editor Chefe dos Invicioneiros, leitor voraz e aprendiz de escritor.Tem opinião e assume os riscos Saudosista dos anos 80. E palpiteiro inveterado. Me Siga no Twitter [@jmpsousa].

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