Leia também...

Leia também...
Homo Sapiens x Homo Cyber

Leia também...

Leia também...
O Humor nos Tempos do Cólera

Leia também...

Leia também...
Os 10 Mandamentos da Vida Virtual

Leia também...

Leia também...
Santos Reis

Caetanópolis S. A.

domingo, 3 de abril de 2011

Eu lembro quando mudei para a pequena e pacata Caetanópolis em fevereiro de 1985. Antes eu morava em Contagem, na região metropolitana de BH, cidade grande e agitada.  A “Contagem das Abóboras” tinha o burburinho dos grandes centros, enquanto que no Cedro [primitivo nome de Caetanópolis], de tão sereno, dava para se ouvir o mato crescendo...

 

Caetanopolis

[Igreja da Matriz de Santo Antônio, Caetanópolis, MG, em Junho de 1999 – Nanquim sobre cartão à mão livre por Harley Coqueiro]

 

Ainda que “pobre-pobre-de-marré-de-si”, eu adorava vender jornais e picolés nos semáforos da sempre movimentada avenida João César de Oliveira,  jogar bola na quadra do Conjunto das Américas e ir aos cultos da Igreja Mórmon.

 

Como Contagem é uma cidade marcada pela imigração, os contagenses são pessoas muito solidárias e que ainda preservam o calor humano típico do interior.  Até hoje, apesar de sua importância na RMBH e do aumento da violência urbana, Contagem ainda mantem o clima interiorano, tal como em alguns bairros da capital mineira.

 

Caetanópolis é uma cidade predominantemente católica e de operários da primeira indústria têxtil do Brasil: a Cedro e Cachoeira. Entrecortada pela BR 040, é gêmea siamesa caçula de Paraopeba, importante cidade do centro mineiro, que tem esse nome em função do rio Paraopeba. E a distância de uma cidade a outra, são exatos vinte minutos a pé, sem pressa…

 

Caetanópolis e Paraopeba são portais do cerrado e, em comum, têm a hospitalidade e a simplicidade de seus povos como cartões postais.

 

Formada por pessoas trabalhadoras, simples e cordiais, Caetanópolis adquiriu notoriedade nacional por ser a terra de Clara Nunes. Acrescento, por minha conta e risco, outras características do povo caetanopolitano: a paixão pelo futebol e o talento para a música e o folclore.

 

Claro que nem tudo são flores e, como em toda pequena cidade do interior, ainda há sempre aqueles invicioneiros e beatas que se preocupam com a vida alheia: é o preço da fraternidade interiorana!

 

O meu pai, aposentado, apesar de todas as dificuldades, havia adquirido um terreno no Embiruçu, povoado de Paraopeba, em 1982. Por causa da proximidade com Caetanópolis, acabou também financiando uma casinha da COHAB, ali, entre os bairros Nossa Senhora das Graças e Mangueiras, acomodando a família naquela “terra prometida”.

 

Tempos difíceis e de muitas incertezas. Eu era o primogênito de cinco irmãos e entrava para a adolescência, com a árdua obrigação de trabalhar para ajudar no sustento da família e de estudar. Na verdade, mais trabalhar do que estudar, por imposição intransigente de meu pai.

 

Confesso que  senti um pouco a adaptação com a nova cidade, pois vindo de outra muito maior, havia, teoricamente, muito mais perspectiva de oportunidades para eu e meus irmãos em Contagem, do que no Cedro. Naquele contexto, na minha visão cética, parecia não haver futuro em Caetanópolis. 

 

E para piorar, o meu pai abandonou a minha mãe e os filhos menores “ao deus-dará”, no início de 1986, rumando para endereço incerto e não sabido…

 

E “vendo a avó pela greta”, naquela época eu tive de assumir a condição de “homem da casa” aos 15 anos. E assim fui molhar plantação de abóboras nas Três Pedras; ralar como servente de pedreiro na construção da unidade da BM; trabalhar de balconista de lanchonete e até ajudante de padeiro no turno noturno eu virei. Tudo pela sobrevivência minha, de minha mãe e de meus irmãos.

 

Eu suei muito para ajudar no sustento de minha família e nunca me arrependi.  Nem estou cobrando nada por isso. Mas quase virei um “punk de periferia”. Quase perdi a minha juventude em razão de apenas trabalhar e trabalhar. Cheguei a cogitar em me mudar para outro lugar, outro país, que houvesse mais oportunidades de empregos e salários, que dessem para sustentar a minha família e fazer um bom pé-de-meia.

 

Mas o que faria “um rapaz latinoatleticano, sem dinheiro no banco, sem amigos importantes, vindo do interior” e sem estudo?

 

Eu sabia que tinha de ser um Maguila e não um Tyson, para ser alguém na vida. Talvez o que eu estava procurando poderia estar mais próximo do que imaginava. E após dois anos perdidos sem estudar e mais duas bombas nas costas, uma voz sussurrou nos meus ouvidos para que eu retornasse aos estudos. E com todas as dificuldades de se conciliar estudo com o trabalho, o filho mais velho da Dona Adelina não parou enquanto não se bacharelou.

 

E sinceramente, as coisas mais preciosas da minha vida, devo a Deus, em primeiro lugar; à minha família e a Caetanópolis, que me adotou como um filho.  Aqui, muitas pessoas me ajudaram ou me desafiaram a ser alguém, quer com oportunidades, quer com incentivos, quer com cobranças e até com maus-olhados! Deram-me a isca e o anzol em vez do peixe, para eu ser mais um pescador de sonhos. E tudo isso instigou-me a buscar uma vida mais digna do que quando eu cheguei em 1985, quase na mendicância…

 

E graças às ações simples de pessoas de almas simples, mas elevadas, que hoje eu sou um acionista dos sonhos desta comunidade que labuta para ser cada vez mais fraterna e solidária [utopia de um mundo mais justo], e me ensinou que para ser alguém, eu não precisaria morar nos grandes centros ou nos EUA. Os meus sonhos estavam bem próximos e só me faltava tato [e calo] para senti-los.

 

E então, sempre dando o meu testemunho de quase “loser”, nunca perco uma oportunidade de sempre incentivar jovens e idosos a estudarem e a sempre, sempre acreditarem em Deus e em si mesmos. Parece pouco? Mas graças principalmente aos incentivos que tive, de pessoas que acreditaram no meu potencial, é que eu cheguei até aqui, realizado como profissional, esposo, pai e cidadão!

 

Sobre o Autor:
Harley Coqueiro

Harley Coqueiro - um cara da paz, iluminista, evangélico não fundamentalista, pai do Ulisses e do Dante. Já desenhou charges, escreveu poemas e compôs canções gospel. Tem como pecados, gostar em excesso de rock'n'roll, filmes e comida!

Feed
Gostou desse Artigo? Então deixe um comentário, assine nosso Feed ou receba os artigos por email

5 comentários :

Postar um comentário

# Antes de comentar, leia o artigo;
# Os comentários deverão ter relação com o assunto;
# Pode criticar a vontade, inclusive o blogueiro;
# Comentários ofensivos ou pessoais serão sumariamente deletados;
# As opiniões nos comentários não refletem a opinião do blog e são de inteira responsabilidade dos seus autores;