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A Maldição do Gerúndio*

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

 

Peço licença para contar uma história que ouvi enquanto viajava de ônibus numa noite chuvosa do verão de 2008. Se é verídica, eu não sei. Só sei que dos fatos não omitirei nenhum detalhe; quanto aos nomes, sim, em respeito aos parentes das vítimas...

 

Maldicao_Gerundio_Jose_Roberto_Arruda_Harley_Coqueiro

 

Antes de tudo, cabe ponderar que há modismos para quase tudo neste mundo. E dentre estas modas e bossas, houve uma recente “guerra fria” declarada ao gerúndio (uma das formas nominais do verbo, formada pela desinência "ndo", que indica a continuidade de uma ação).

 

Revoltados com os atendimentos de SAC e call center, alguns ortodoxos patrocinaram uma verdadeira “caça às bruxas”, ou melhor, “caça às atendentes de telemarketing viciadas em conjugar verbos no futuro, acrescidos de gerúndio”:  “vou ‘estar passando’ a reclamação para o setor responsável...”.

 

Mas cá entre nós: é preferível que a atendente “esteja passando” realmente a sua reclamação para o setor responsável e “resolvendo”, do que “engavetando”, como fazem certas autoridades diante de denúncias contra chegados seus...

 

Fato é que não há crime na utilização do gerúndio. O problema é o gerundismo, que acabou por banalizar uma forma nominal tão necessária quanto o ar que respiramos. Mas ainda que inapropriado em alguns tempos verbais, eu não tenho a pretensão de ser o carrasco de quem o pratique na forma falada. Na escrita, porém, é que se deve tomar cuidado. Por isso, não ousarei a atirar a primeira pedra. Talvez, “estarei atirando” a segunda...

 

O pior dos modismos ocorre quando político se mete a criar moda. Em 2007, o então governador do Distrito Federal assinou um decreto no mínimo surrealista: “Fica demitido o gerúndio de todos os órgãos do Distrito Federal”. A justificativa: acabar com a típica burocracia dos governos, que se valem do gerúndio para “desculpa de suas ineficiências”. Como que num passe de mágica, revoga-se a nossa burocracia quinquentenária, exterminando a sua causa: o gerúndio...!

 

Feito este prefácio, passarei ao epílogo da história propriamente dita.

 

Viajava eu no último Setelagoano, de BH à Paraopeba, via Caetanópolis, quando ouço dois senhores, nas poltronas de trás, confabularem sobre um fato ocorrido em Brasília, em que um deles foi o protagonista (apresentarei a versão adaptada, com exageros, é claro, senão não teria graça!):

 

Dois porteiros do estacionamento do Governo do Distrito Federal, em troca de turno, comentam o decreto do governador candango que “demitira o gerúndio”. Ainda que ambos tenham a noção do que se trata o ato governamental, eles, como todos os porteiros e guardas de banco, que detêm o poder supremo de igualar os iguais e desiguais, aproveitam o mote para fazer uma chacota com um humilde faxineiro que se encontra ao derredor:

 

“Ô, mineirinho, fica esperto! O governador ‘tá’ mandando embora até gente concursada... Hoje ele ‘correu’ com o ‘Gerúndio do almoxarifado’!”

 

O faxineiro, sem interromper o vaivém de sua vassoura desgastada de bruxa medieval, responde mansamente:

 

“Se eu fosse o ‘guvernadô’, eu ‘num taria mexeno’ com o homem do almoxarifado, não...”

 

Após uma breve pausa, sussurra:

 

“Uai... Dizem até que ele é ‘feiticero’!”

 

Com as suas gargalhadas escarnecedoras, os porteiros lembram uma revoada de maritacas...

 

* * *

 

O tempo passou e com ele as dores do mundo. E não é que aquele faxineiro tinha razão: o governador cairia em 2010, por, ironicamente, praticar o que outrora combatera: “ ‘estar levando’ dinheiro nas meias”...

 

 

* Crônica publicada na Folha de Paraopeba, edição de janeiro de 2012.

 

Sobre o Autor:
Harley Coqueiro

Harley Coqueiro - um cara da paz, iluminista, evangélico não fundamentalista, pai do Ulisses e do Dante. Já desenhou charges, escreveu poemas e compôs canções gospel. Tem como pecados, gostar em excesso de rock'n'roll, filmes e comida!

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