Leia também...

Leia também...
Homo Sapiens x Homo Cyber

Leia também...

Leia também...
O Humor nos Tempos do Cólera

Leia também...

Leia também...
Os 10 Mandamentos da Vida Virtual

Leia também...

Leia também...
Santos Reis

Filosofia Para as Massas

terça-feira, 15 de abril de 2014



Um professor do ensino médio de uma escola do Distrito Federal causou controvérsia ao apresentar uma questão mencionando a cantora de funk carioca Valesca Popozuda como “grande pensadora contemporânea” numa prova de filosofia.

Prova_Popozuda

Segundo Antônio Kubitschek, o responsável pela prova, a ideia da pergunta surgiu a partir de um debate em sala de aula sobre a formação moral da sociedade e sobre a construção de seus valores. "Discutimos em sala que a escola só aparece na mídia em contextos ruins. Há vinte dias fizemos uma exposição de fotos e nenhum veículo de comunicação deu atenção. Então eu decidi colocar uma questão como essa na prova, esperando a repercussão nas redes sociais e na imprensa.".

Lecionando há quase vinte anos na rede pública, o mestre defendeu a forma como se referiu à funkeira. "É um fato engraçado. Se eu tivesse colocado Chico Buarque como grande pensador contemporâneo, não geraria polêmica nenhuma! Mas a partir do momento em que a Valesca traz uma música e a imprensa diz que 'fulano de tal deu um beijinho no ombro', ela está passando um conceito. Se a gente pegar uma corrente filosófica de que todo mundo pode ser um pensador desde que consiga criar um conceito – e aí vêm os filósofos franceses, então eu acho que a Valesca é, sim, uma pensadora!", justificou o professor, que usou o termo "grande pensadora contemporânea" sem aspas na prova, por ter a convicção de que a funkeira exerce influência sobre a sociedade. "Ela acabou criando um conceito. Se ela influencia a sociedade com o que ela pensa, eu a considero, sim, uma pensadora.".

E com isso o professor alcançou o seu intento. Fez os fins justificarem os meios, e, ainda que tenha “forçado a barra” com o enunciado da questão, conseguiu provar para os seus alunos como a mídia e a internet são ferramentas poderosas na sociedade, e o quanto essa mesma sociedade se encontra dominada por aquelas, a ponto de se ver influenciada por uma artista de um gênero musical tido como tosco e maldito.

A meu ver, muito além de se reconhecer a cantora como pensadora ou não ainda mais em nosso país que, paradoxalmente, orgulhamo-nos das conquistas no futebol mas não temos um Prêmio Nobel sequer percebe-se o quanto o preconceito e o recalque já fizeram metástase em nossas almas. Tivesse a cantora nascido na Zona Sul e frequentado as escolas mais tradicionais do Rio, a questão da prova, certamente, teria passado em branco. Mas não, a pensadora em questão é mulher, favelada, funkeira, desbocada e jamais pertencerá à “elite cultural brasileira”.

O amigo Antônio Souza observou bem: “Pelo jeito, o tal professor conseguiu mostrar ao mundo o que é filosofar atingindo todos os públicos. Não se filosofa só com a parede.

Muitos acusarão o professor candango de banalizar o ensino de filosofia. Mas ele foi suficientemente corajoso ao, involuntariamente (ou não), iniciar um processo de “deselitização” da filosofia (perdoem o neologismo!). O docente está desembrulhando a filosofia de seu invólucro de papel alumínio dourado e está para servi-la numa “quentinha” bem temperada para as massas, tornando-a mais palpável, mais acessível, menos abstrata e menos maçante.

Por outro lado, nunca ouvi uma música da Valesca. Mas toda a discussão e muitos comentários que li nas redes sociais chegam a assustar. O Brasil dá indícios de estar caminhando a passos largos para um neofascismo. Embora entenda que ninguém é obrigado a gostar de funk carioca, percebo que uma horda de fariseus tem o prazer de manifestar todo o seu radicalismo, toda a sua intolerância contra aquilo o qual não se afeiçoa, estética ou ideologicamente.

Também não sou fã do funk carioca. Mas gosto de rock, reggae, samba e de Racionais MCs que, coincidentemente ou não, são ritmos e gêneros musicais que tiveram as mesmas origens nas camadas sociais mais pobres e excluídas. E tanto quanto o seu “primo pobre carioca”, também penaram muito por serem rotulados como ritmos marginais, profanos, indecentes, demonizados, proibidos pelas elites, combatidos pelas autoridades e talvez por tudo isso também venerados pelas juventudes de ontem e de hoje.

E afinal: tudo o que desafia o senso comum não pode ser filosófico? Ou Sócrates foi envenenado por acaso?


Bonus Track I:




Bonus Track II:




Sobre o Autor:
Harley Coqueiro
Harley Coqueiro - Advogado e Jornalista. Chargista e Cronista da Folha de Paraopeba. Fã de Beatles, de thrillers policiais e da boa comida mineira.
Feed
Gostou desse Artigo? Então deixe um comentário, assine nosso Feed ou receba os artigos por email

0 comentários :

Postar um comentário

# Antes de comentar, leia o artigo;
# Os comentários deverão ter relação com o assunto;
# Pode criticar a vontade, inclusive o blogueiro;
# Comentários ofensivos ou pessoais serão sumariamente deletados;
# As opiniões nos comentários não refletem a opinião do blog e são de inteira responsabilidade dos seus autores;